UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA – UESB
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS – DCHL

DISCIPLINA: EDUCAÇÃO, TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMINICAÇÃO
DOCENTE: MARIA DA CONCEIÇÃO FERREIRA
FICHAMENTO
“A
CO-LABORAÇÃO NA/EM REDE”
Lynn Alves / Ricardo Japiassu / Tânia Maria
Hetkowski
“A aldeia
global, concebida por Mc Luhan e Powers, décadas de 1960 e 1970, possui hoje uma
outra configuração, muito mais interativa, possibilitando a emergência das
chamadas comunidades de aprendizado. Para Rheingold, essas
comunidades se constituem em agregações sociais que surgem na Internet formada
por interlocutores invisíveis que podem ter interesses que vão do conhecimento
científico ao conhecimento espontâneo, utilizando esses espaços para trocas
intelectuais, sociais, afetivas e culturais, permitindo aflorar os seus
sentimentos, estabelecendo teias de relacionamentos, mediadas pelo computador,
conectados na/em Rede.”
“A emergência destas comunidades pode configurar o
que Lèvy denomina de
uma inteligência coletiva, que se constrói no ambiente da/em Rede , mediante
uma necessidade pontual dos seres humanos, que intercambiam seus saberes,
trocando e construindo novos conhecimentos, estabelecendo, assim, laços
virtuais, auxiliando os seus membros no aprendizado do que desejam conhecer.
Esta inteligência, para ele, não prescinde da inteligência pessoal, do esforço
individual e do tempo necessário para aprender, pesquisar, avaliar e
integrar-se a diversas comunidades, sejam elas virtuais ou não.”
“É importante revelar que o entendimento do
processo de construção colaborativa do conhecimento cuja ênfase recai em suas
origens sociais e históricas, isto é, num conhecer orientado inicialmente no
sentido do coletivo para o sujeito, não emerge apenas com o amplo uso
instrumental das mídias telemáticas na Educação nem tampouco constitui uma
abordagem "nova" aos processos de aprendizado e desenvolvimento
humanos.”
“Iniciada por Vygotsky e
posteriormente desenvolvida por Luria e Leontiev - entre muitos outros cientistas russos - a psicologia
histórico-cultural defende que o aprendizado e o desenvolvimento
tipicamente humanos só podem ocorrer a partir da internalização (interiorização)
das funções interpsíquicas (entre sujeitos). Estas funções interpsíquicas são
co-laboradas (construídas conjuntamente) e mediadas por ferramentas concretas
(machado e computador, por exemplo) e instrumentos psicológicos de
natureza imaterial (como é o caso do uso de signos na comunicação e pensamento
verbal).”
“Os
saberes práticos, as (in)formações e os conhecimentos empíricos e científicos
co-laborados e em co-laboração pelo sujeito só podem ser viabilizados
unicamente através da MEDIAÇÃO CULTURAL[...] Unicamente assim, a partir da
imersão do sujeito em variadas comunalidades de práticas coletivas, a pessoa
pode conferir uma significação compartilhada a essas construções co-laboradas,
apropriar-se do seu significado original e enfim conseguir ressignificá-las
livremente (nível intramental) co-laborando novos, originais e imprevisíveis
sentidos num processo initerrupto e que não tem fim.”
Desafios
contemporâneos à pedagogia da co-laboração na/em Rede
“A prática pedagógica, quando mediada pelas TIC,
altera a função educacional do professor e a sua compreensão do contexto
educativo - o qual é necessariamente (in)formado por diversas outras práticas
cotidianas (política, ética, econômica etc.). Essas práticas orientam e
deflagram as ações dos professores e imprimem significados à vida profissional
dos docentes.”
“Alguns obstáculos que se interpõem à prática
pedagógica do professor podem ser: (1) o ensino é interpretado como uma
atividade seletiva; (2) o contexto organizacional desse ensino faz com que os
professores desenvolvam trabalhos individuais e não coletivos; (3) as lógicas
de socialização profissional não acontecem em momentos apropriados ao
desenvolvimento de atitudes reflexivas; (4) as TIC e os materiais didáticos são
gerados a partir de uma lógica hierárquica vertical, constatando-se que as
supostas iniciativas co-laborativas não contemplam a horizontalidade nos/dos
processos formativos dos professores.”
“Portanto, as TIC entram na escola como
dispositivos técnicos e as práticas pedagógicas continuam pautadas em velhos
paradigmas, apenas com uma diferença: retira-se a centralidade do professor
transferindo-a para as TIC. [...] O ciberespaço, deste ponto de vista, precisa
então ser concebido como lugar de inovação, de co-laboração social, política e
de mobilidade das práticas pedagógicas.”
“Essas peculiaridades abarcam desde a exploração de
diferentes linguagens - escritos, gráficos, audiovisuais, icônicos, digitais -,
até o enfrentamento de problemas complexos da vida escolar que o professor,
através da sua ação, deve gerir.”
“O professor(a) - pode compartilhar e efetivar
mudanças recorrendo à riqueza das práticas coletivas oportunizadas pelo
ciberespaço.”
“Recorrer a esses eixos norteadores significa
reconhecer que a mudança na educação "não depende diretamente do
conhecimento, porque a prática educativa é uma prática histórica e social que
não se constrói a partir de um conhecimento científico, como se tratasse de uma
aplicação tecnológica."
“Significa, em outras palavras, dizer que as práticas
pedagógicas não são lineares, mas dinâmicas e potencializadoras do conhecimento
mediado pelas TIC.”
“A literatura especializada costuma justificar a
"recusa" de educadores e educandos em fazerem uso deste tipo de
ambiente para promoção da atividade co-laborativa atribuindo-a, basicamente, a
três fatores: (1) os sujeitos têm que aprender a lidar com a diferença, o que
sempre é algo complexo; (2) esses ambientes solicitam posturas intelectuais
autônomas e processos co-laborativos de/em grupo (algo que a escolarização
tradicional tem falhado em promover); e (3) as pessoas necessitam apropriar-se
dos recursos informáticos e suportes tecnológicos - o que, para muitos, é algo
novo e ainda distante das suas competências econômicas e culturais. “
“Apesar dos discursos co-laboracionistas
renovadores e dos avanços pedagógicos já alcançados pelo desenvolvimento de
novas práticas de ensino-aprendizado com o uso das TIC, a atividade
co-laborativa permanece sendo um desafio à educação formal em e-coletivos.”
“Castoriadis (1982) enfatiza que o imaginário
social instituinte pode criar uma forma de democracia na qual seja possível o
exercício da autonomia individual e coletiva.”
“A atividade pedagógica mediada pelas redes
digitais proporciona então a criação de novas práticas instituintes. Mas,
embora a atividade pedagógica instituinte tenha raízes nas práticas
educacionais já institucionalizadas, ao mesmo tempo, contraditoriamente,
apresenta-se como desafio ao status quo. Um desafio que converte-se em
movimento instituinte por solicitar dos agentes pedagógicos a transgressão
do movimento "linear" de ensinar e aprender, ou seja, por gerar a
necessidade de mudança nas práticas pedagógicas.”
“A educação on-line baseada no aprendizado
co-laborativo - que toma o aluno como eixo das intervenções pedagógicas,
responsabilizando-o por seu próprio aprendizado - revela existir uma grande
dificuldade por parte dos aprendizes em sustentarem, ao longo do tempo de
duração dos cursos, o seu desejo de saberem mais e melhor como "aprender a aprender" Promover o auto-aprendizado e portanto o
pensamento crítico do sujeito - no sentido de fazê-lo ir além do senso comum -
tem ocasionado, com alguma freqüência, a emergência de uma nova categoria
"estatística" nos processos formais de EaD: os "evadidos
on-line."
“Cotidianamente vemos emergir novas CVAs na/em Rede
(WEB). Contudo, observa-se que os agrupamentos de sujeitos mediados pelas TIC
tendem a desaparecer com a mesma rapidez com que surgem. Sustentar o desejo
para manter e preservar a co-laboração de/em uma CVA exige o exercício
contínuo da autonomia.”
“Essa dificuldade em ousarmos ser autores dos
nossos próprios enunciados, em nos "autorizarmos" pode, de fato,
estar relacionada ao tipo de educação que tivemos oportunidade de vivenciar em
nossas vidas.”
“Na configuração política, social, econômica e
educacional excludente atual, típica da pós-modernidade, a co-laboração em/na
Rede pode ser, contraditoriamente, uma alternativa às tradicionais práticas
autoritárias que têm caracterizado as relações de poder nas organizações e
empreendimentos educativos no capitalismo tardio.”
“A co-laboração na/em Rede, sem dúvida, pode
contribuir para a emancipação do sujeito engajando-o em um genuíno processo de
construção autônoma de novos conhecimentos e saberes. Ao deparar-se com a voz e
os enunciados do OUTRO, em e-coletivos que estejam abertos à uma participação
"horizontal" de todos, o aprendiz põe em movimento a sua capacidade
de tolerar o pensamento divergente, de respeitar as crenças e convicções dos
diferentes grupos humanos e de considerar legítimos os pontos de vista da
alteridade - de modo não submisso no entanto.”
“A co-laboração portanto implica o desenvolvimento
de processos interacionistas que visam encorajar os sujeitos a atuarem
em conjunto para a construção de diferentes conhecimentos e saberes,
enfatizando a co-autoria (DIAS).”
“A atividade co-laborativa genuína só pode ocorrer
a partir da premissa da interatividade - interatividade aqui entendida
de modo a ultrapassar a relação solitária do sujeito com as interfaces e seus
agentes humanos e artificiais. É só através da interatividade que pode ocorrer
a participação criativa dos usuários nos sistemas e - o mais importante -
realizar-se a interação e as trocas entre os membros de uma comunidade.”
“Portanto, no sentido que interessa aqui, a
interatividade deve ser compreendida como a possibilidade de o usuário
participar ativamente, interferindo no processo de ensino-aprendizado com
ações, reações, intervenções, tornando-se simultaneamente receptor e emissor de
mensagens (modelo emirec de comunicação).”
“A interatividade assim entendida - de modo amplo -
nos permite avançar pedagogicamente em relação ao modelo instrucionista do tipo
broadcast- que apoia-se em pólos transmissores para a distribuição unilateral
das mensagens à muitas pessoas em diferentes locais, simultaneamente.”
“Hoje, pode-se encontrar facilmente a
interatividade do tipo Todos-Todos aplicada à algumas tecnologias
síncronas (interação em tempo real) - por exemplo, nos chats, nas tele e
videoconferências, nos jogos de RPG e nos Muds.”
“A interatividade e a interconectividade,
possibilitadas e incrementadas pelas tecnologias digitais e pela cultura da simulação, típica
das comunidades virtuais, vêm contribuindo sem dúvida para a instauração
daquela "outra" lógica à qual já nos referimos, e que caracteriza
tanto o fast thinking (pensamento ágil "multimídico") como o
pensamento complexo (ou "conhecimento hipertextual").”
“O uso intensivo e articulado de diferentes
modalidades de pensamento pode levar à formação de novas habilidades cognitivas
como (1) rapidez no processamento de informações imagéticas; e (2)
trânsito/disseminação mais ágil de idéias e informações com efetiva
participação (inter)ativa do sujeito no processo de transmissão de dados ao
mesmo tempo em que este faz uso de várias "janelas" cognitivas.”
“Atuar co-laborativamente vai além de tomar parte
nos desgastados "trabalhos em grupo" - que tiveram ampla divulgação
com a difusão, penetração e corruptela das idéias renovadoras da Escola Nova nas práticas educacionais nacionais.”
“A escola do trabalho [Escola Nova] é a escola em
que a atividade é aproveitada como um instrumento ou meio de educação ... [o
método escolanovista] baseou toda a educação na atividade criadora e
pesquisadora do aluno, estimulada pelo interesse, que, permitindo
desenvolver-se o trabalho com prazer, lhe dá o caráter educativo de que deve
revestir-se na escola.”
“Pode–se afirmar, sem receio, que a atividade
co-laborativa atua na zona de desenvolvimento proximal (ZDP) da comunidade de
aprendizado em razão de os participantes do grupo - com suas singulares
competências - auxiliarem-se uns aos outros na qualidade de membros mais
experientes de diferentes círculos de conhecimento e variadas práticas
culturais.”
“Tomando-se por base as idéias de Almenara e
Espinosa referenciadas aqui, conclui-se facilmente que a atividade
co-laborativa (trabalho colaborativo) pressupõe (1) a formação/promoção de
grupos heterogêneos, evitando-se – sempre que for possível – agruparem-se os
sujeitos reiteradamente com pessoas com as quais ele(a) já mantêm vínculos
sociais; (2) a busca do alcance dos objetivos pessoais e do e-coletivo; (3) a
interdependência não hierarquizada entre os membros do grupo como forma de
incentivo à um genuíno aprendizado.”
“O trabalho colaborativo exige dos participantes
habilidades comunicativas; técnicas interpessoais; relações simétricas e
recíprocas; desejos de compartilhar a resolução da tarefa (responsabilidade
individual no alcance do êxito do grupo).”